A Psicanálise como Caminho de Questionamento

Desde a infância sempre temos o sonho de uma profissão, sempre recebemos a pergunta “O que você quer ser quando crescer?”, e então pensamos em várias possibilidades até que nos tornamos adultos e seguimos um caminho, uma ocupação, natural do ser humano. Seria essa ocupação algo que preenche um vazio estrutural? Como propunha o psicanalista Jacques Lacan, existe uma falta estrutural na experiência humana, algo que jamais é completamente preenchido e que nos impulsiona a buscar ocupações, sejam sonhos, tarefas do dia, projetos familiares, algo que faça sentido para a nossa existência.

Mas será que essa busca por sentido sempre existiu da forma como a conhecemos hoje?

Quando fazemos uma breve pesquisa sobre a evolução humana nos deparamos com uma forma de existência bem diferente do que vemos atualmente. As preocupações eram caçar o que comer, estar seguro de animais selvagens e manter a sobrevivência da espécie. Não haviam questionamentos sobre o que iria ocupar o tempo, era apenas sobreviver, ou seria viver?

Talvez tenha sido justamente a transformação desse modo de vida que abriu espaço para novos questionamentos sobre quem somos e como existimos.

Com o passar dos milhares de anos essa forma de existir foi se modificando. Fomos nos “civilizando” ou será que “civilizados”? Ao longo da história surgiram diferentes tentativas de explicar nossas origens e os grandes saltos da humanidade. Alguns atribuem esses acontecimentos à ação de deuses, outros imaginam intervenções extraterrestres, enquanto a ciência busca compreender esses processos através da arqueologia, da antropologia e da história. Independentemente da explicação adotada, nosso olhar humano foi se transformando. Criaram-se culturas, comportamentos padronizados, crenças religiosas, reis soberanos, guerras entre civilizações, poder, dinheiro e, assim, foi sendo moldada nossa compreensão sobre o que é existir.

Mas à medida que as sociedades se tornavam mais complexas, surgiam também novas perguntas.

Então se passou mais algum tempo e chegaram os filósofos, questionadores sobre esse modo de existir, e com isso moldaram toda uma sociedade, trazendo mais uma vez uma nova forma de olhar para nossa existência e tudo que nos cerca.

Existem aqueles que se sentem preenchidos com o clássico estudar, trabalhar, ter uma família e, após envelhecer, aproveitar o tempo que resta. Alguns não por opção, mas porque sua realidade se mostrou apenas esse caminho. Alguns não estudam, outros trabalham até envelhecer, outros formam famílias. Alguns conhecem o quão grande é o planeta em que vivemos, outros apenas sobrevivem a mais um dia. Outros têm realidades tão dolorosas que nem sequer vivem, existem por uma força maior que existe em nós e que luta pela sobrevivência.

Apesar de todas essas formas diferentes de existir, permanece uma questão em comum: o que fazemos com a experiência de sermos quem somos?

Você que leu até aqui pode se perguntar: mas o que isso tem a ver com psicanálise? E eu digo que, como não teria? A própria palavra em si implica uma análise, e analisar também é questionar: a si mesmo, o mundo, a existência. Sair da caixa que nos colocaram de que viver é somente ocupar o tempo construindo coisas. E aqui não é um julgamento, afinal é uma forma de experienciar a existência humana, com a qual algumas pessoas se sentem bem.

E respondendo à pergunta inicial, analisar, questionar, descobrir sobre nossa própria existência e sobre todo esse espaço em que vivemos também é uma forma de existir, que é o caminho que eu escolhi para experienciar essa existência. Através da psicanálise encontramos uma questão muito intrigante. Freud dizia que “Não somos senhores em nossa própria casa”. Isso quer dizer que afinal existe algo em nós que não somos nós de fato, e entramos em um questionamento fundamental: “e quem somos nós?”. Através de uma boa análise conseguimos ir retirando o que nos foi imposto desde que nascemos e, assim, conquistamos uma maior autonomia sobre nós mesmos, um conhecimento que pode nos libertar de prisões invisíveis. Esse caminho requer coragem e resiliência, pois nossa própria mente nos coloca uma resistência nesse passo, mas que vale cada instante de inquietação e angústia que o conhecimento de si próprio pode causar. Existir de forma consciente e fazer valer o privilégio que nos foi dado, que é existir.

Esse foi um breve relato de quem tem uma jornada que não termina com conclusões prontas e nem verdades absolutas, mas que está sempre buscando novos questionamentos, o que explica um artigo que no fim não traz uma resposta pronta, mas abre ainda mais perguntas. Talvez a psicanálise não exista para encerrar perguntas, mas para nos ensinar a habitá-las. E é justamente nesse movimento que continuo encontrando razões para seguir esse percurso.

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